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Denise Deschamps, do site Rede Psi

Eu vos digo: é preciso ter ainda caos dentro de si, para poder dar à luz uma estrela dançante”* (Nietzsche).

O presente artigo procurará tratar do complexo tema que envolve o que são fantasias em análise ou distorções de material por aquilo que popularmente costuma chamar-se de
“mentira”. Pretende uma breve reflexão acerca do uso que o psicanalista poderá fazer das diferentes dinâmicas presentes no setting frente a esses aspectos.

Sabemos da existência de um quadro, onde se perde totalmente a dimensão do que é real, daquilo que é fantasia, naquele que padece dessa dinâmica, ou mais apropriadamente conceituando diríamos dessa economia, conhecida como mitomania, ou seja, uma compulsão a contar pequenas ou complexas “inverdades”.

O sujeito que dela padece não tem o menor controle sobre seus impulsos, mente sobre questões, muitas vezes, aparentemente, sem nenhuma importância. Move essa compulsão uma grande necessidade de ser admirado apoiada em grave e intenso sentimento inconsciente de menos-valia, onde traços fortemente narcisistas determinarão o impulso para o ato de mentir.

Há também a existência de uma compreensão de que essas supostas “mentiras” guardariam sempre traços associativos acerca de mentiras sexuais a que esse sujeito teria sido submetido em sua infância, de certa maneira apontando para uma dinâmica ligada ao que se conhece em psicanálise como lembrança encobridora( cena primária – ligada à visão da cena sexual de seus pais).

Fato é que em curso de uma análise a questão das fantasias, devaneios, lembranças encobridoras ou mentiras compulsivas, estarão sempre presentes na relação transferencial, e que não há análise sem sua existência em maior ou menor grau, como cadeia associativa, ou ainda, apontando para forte padrão de resistência.

Dentro do curso normal de uma análise o psicanalista deverá estar apto a lidar com suas gradações e variações e possibilitar um padrão de associação que possa trazer a tona seus diferentes usos.

É comum o relato de pacientes, movidos por fortes sentimentos de culpa, dentro do manifesto, dirigido ao fato de ter construído para seus analistas pequenos ou grandes relatos que entendem como mentira.

Pesquisados em suas cadeias associativas apontarão quase sempre para relatos de material fortemente recalcado que guardam traços por deslocamentos com seu representante que permanecerá inconsciente.

A resistência nesse caso se apoiará fortemente em um sentimento superegóico de culpa e vergonha pela “mentira”, assim como a repetição do padrão do medo de ser rejeitado por seu analista, agora na relação transferencial, ocupando o analista, o lugar da mãe abandonadora e não “continente”. Mas, ao alimentar essa evitação, na verdade o analisando alimenta o silêncio da resistência, tão característico, e que serve para ocultar a possível cadeia associativa que poderia ser estabelecida a partir de sua “mentira”.

É importante para o psicanalista, em momentos como esse, trabalhar mais do que nunca com sua contra-transferência bem compreendida, evitando a todo custo seus núcleos de acusações superegóicas.

Não será desse lugar, que poderá cumprir sua função dentro do enquadre. Toda “mentira” é então resistência e como tal oculta, mas também revela, trazê-la para a associação deverá então ser a meta, bem claramente delimitada e buscada.

Poderemos ainda pensar na característica das “verdades” que um paciente traz para a análise, partindo da suposição que são fantasias ou idéias delirantes, exemplo comum na clínica dessa variação, vem a nós pelos parceiros que desconfiam de seus pares.

Como definir o que é delírio de ciúmes, do que está realmente acontecendo e do que se apresenta como algo que é um perigo inconsciente ou ainda uma projeção?

Será que cabe ao psicanalista ocupar esse lugar? Como se atua aí com o teste de realidade, fundamental para que se lide com as duplas mensagens envolvidas quase sempre nessas situações?

Algumas dessas desconfianças nos chegam com o forte sentimento de que são loucura, o que mais tarde, com um ego mais fortalecido, esse sujeito poderá entender como percepção e entendimento. Isso nos leva a situação inversa que analisávamos antes.

Outro exemplo, infelizmente não tão incomum, é o de lidar com sujeitos adotados e que não foram informados sobre isso, que convivem todo tempo com forte sentimento de mentira e engano, tendo na desconfiança seu mote principal que dinamiza seus vínculos.

Aí a verdade está oculta até para ele, o discurso manifesto é a mentira que viveu e vive enquanto realidade com grandes conseqüências para sua estrutura de ego.